Jogando tudo para alto

As pessoas podem ser diferentes, terem outros hábitos, costumes e culturas, mas a busca pela alma gêmea é uma verdade quase unânime. Mas o que fazer quando a pessoa certa mora em outra cidade ou outro país? Como criar coragem para ir atrás do grande amor e abrir mão da estabilidade e da segurança para se arriscar por causa do amado?

Antes de tomar uma decisão desse tipo, muitas atitudes devem ser levadas em consideração. Afinal, o que está em jogo é o seu futuro e as conseqüências que essas mudanças vão ocasionar. O psiquiatra e psicoterapeuta Eduardo Ferreira-Santos afirma que nesses casos é preciso tomar conta para não se precipitar e, sim, pensar e repensar inúmeras vezes antes de se decidir pela mudança. “Uma atitude desse tipo pode revelar um desespero pela vida atual e, assim, a pessoa pode não ter total consciência do que essa ação de mudança implica. Por isso, muitos consideram uma ‘loucura’ agir desse modo”, explica.

O especialista também afirma que às vezes a paixão pode acontecer por causa da carência e que, ao ir atrás do amor em outro lugar, a decepção pode ser inevitável. “Determinadas pessoas, principalmente aquelas sem vínculos fortes ou bastante insatisfeitas com sua vida atual, deixam-se persuadir pela ilusão de uma paixão e lançam-se às aventuras em nome de um suposto amor”, diz.

Com a funcionária pública Carla Almeida* o amor superou a distância, mas para isso ela teve que abrir mão de muita coisa. Carla morava em Brasília, estava recém-separada e tinha uma filha pequena quando conheceu Antônio*, que estava na cidade a trabalho. Eles se apaixonaram e logo engataram um romance. O problema era que Antônio morava no Rio de Janeiro e não podia se ausentar muito, pois era dono de uma empresa. “Por conta do trabalho, o Antônio ficava preso e não podia viajar. Foi aí que decidi me mudar. No início foi muito difícil, minha família não entendeu e eu fiquei dois anos sem falar com meus pais”, conta ela.

Na hora da mudança tudo é um verdadeiro desafio, novo emprego, novos amigos, nova cidade, além de ter que aprender a lidar com a saudade. Por isso, é preciso ficar atento e não deixar que o sentimento tome conta da razão. “Durante o processo de mudança tudo é difícil, mas a cegueira da paixão minimiza os problemas imediatos, que só serão superados realmente com o apoio do parceiro. Assim, as pessoas poderão se adaptar e encontrar sua felicidade, enfrentando todas as dificuldades que se apresentarem”, diz o psiquiatra.

Carla teve que recomeçar uma vida inteiramente nova, pois não conhecia ninguém na cidade: “Eu não tinha amigos, estava longe da minha família e ainda tive que lidar com o peso na consciência de deixar a minha filha longe dos parentes. Meu marido foi muito paciente e me ajudou muito nessa transição. Hoje vejo que tudo valeu a pena, pois tivemos um filho e estamos juntos há vinte anos”, conta.

O Dr. Eduardo alerta que o cuidado da mudança deve ser redobrado para aqueles que possuem filhos. Tanto no caso dos que vão viver longe das crianças, quanto dos que as levarão junto. Os pais que optarem por viver longe da família devem ficar atentos às reações de seus filhos. “Crianças pequenas jamais esquecem um abandono. A situação exige cuidados especialíssimos para que esta ‘partida’ não seja sentida de forma brusca pelas crianças. Se a mudança se dá para um país distante e surja a impossibilidade de manter contato mais próximo com os filhos, os danos podem ser irreparáveis”, alerta. Ligar sempre, enviar presentes e passar juntos períodos como férias e feriados são atitudes essenciais para minimizar a falta e a distância.

Preparado para tudo

Mas e quando o relacionamento não dá certo? É possível retornar para a sua antiga vida? Segundo o médico, aceitar o fim do relacionamento e estar preparado para enfrentar a decepção são os primeiros passos para o recomeço. “Como tudo na vida, sempre há um espaço para recomeçar. Mas para quem deixou muita coisa para trás em prol de uma paixão, é preciso encarar a realidade do fracasso e procurar, mais uma vez, reconstruir sua vida”, explica.

Foi o que aconteceu com a publicitária Andressa Lemos que saiu do Rio de Janeiro para morar com o namorado em São Paulo. “Decidi me mudar quando vi que nossa relação de três anos estava por um fio porque estávamos discutindo muito. Ficamos juntos por mais cinco anos e acabamos nos separando por projetos de vida diferentes mesmo”, diz. Apesar do relacionamento não ter durado, Andressa diz que não se arrepende de ter deixado os amigos, o emprego e a família para tentar salvar o seu namoro. “Não tenho arrependimentos porque sinto que fiz o que eu precisava fazer. Vivenciamos uma fase legal, mas acabou não dando certo. Hoje continuo vivendo em São Paulo e não penso em voltar para o Rio”, completa.

Para viver uma história de amor, seja ela juntos ou à distância, é preciso ter coragem e consciência de que decepções e dificuldades surgirão. Mas com perseverança e o apoio da pessoa amada, ir atrás da paixão realmente pode ser a escolha certa.

Afinal, o importante é tentar ser feliz. “Em qualquer atitude mais drástica que se tome na vida, prós e contras caminharão sempre de mãos dadas. É preciso saber agir com prudência, sem temores e com muita coragem e ousadia para escolher entre opções que, por definição, implicam em ganhos por um lado e perdas pelo outro, simultaneamente”, finaliza o psiquiatra.

* Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados.

 

 


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