Um mundo de vips

Três letrinhas que todo mundo adora ouvir. A sigla usada para designar pessoas muito importantes no mundo do luxo caiu no gosto de quem também quer ser bem tratado e ter acesso exclusivo a serviços e pessoas. Hoje há áreas vips em boates, festas, aeroportos e até em restaurantes.


T
rês letrinhas que todo mundo adora ouvir. VIP: very important person. Ou, em bom português, pessoa muito importante. A sigla, criada na década de 40, virou modismo e hoje em dia é usada não só para designar pessoas influentes e famosas como para caracterizar serviços de alta qualidade ou exclusivos e áreas de acesso restrito.

A composição do naipe de vips muda de acordo com o tempo. Nos anos 30, estrelas de cinema e até da ópera eram os mais importantes que se poderia julgar. Maria Callas, abalava os salões do mundo todo, por exemplo. Nas décadas seguintes, cantores e políticos é que passaram a ocupar o status de pessoas cortejadas e centro de atenção social. Hoje, os artistas da TV, entre atores e modelos, é que são os alvos do tratamento especial mundial.

Liége Monteiro, uma das promoters cariocas mais renomadas e responsável por listas vips invejáveis, cita algumas personalidades vips contemporâneas. “Fernanda Montenegro abrilhanta qualquer evento. Pitanguy, Gabriel Pensador, Sandy e Junior, Lenine, Vera Fisher. E o João Ubaldo Ribeiro, que raramente sai. É um amigo, inteligente, brilhante, acadêmico. Ele é mais do que vip. Há inúmeros vips, cada um dentro da sua área”, explica Liége.


Fica aqui pertinho

A agenda de um vip é disputadíssima. Quem realmente é alguém no mundo das celebridades recebe inúmeros convites para festas e eventos. Afinal, se uma festa está cheia de vips, o evento se torna importante, ganha mais mídia, entre outras coisas. Por isso, quem prepara a lista de convidados de eventos importantes, como Líège, está sempre suscetível a receber pedidos de quem deseja “o nome na lista vip”. “O vip de verdade não precisa pedir, é alguém que nós gostaríamos de convidar”, diz Liége.

Por outro lado, organizadores de eventos têm que se esmerar na qualidade das produções para atrair um vip. E aí, para garantir a presença de gente muito importante, muitos decidem pagar pela presença. Foi assim que surgiu o mercado da “presença vip”, uma janela de oportunidade também para artistas e celebridades que podem mais que dobrar seus salários oficiais com o cachê desses eventos.

No último carnaval, por exemplo, uma empresa pagou à top Naomi Campbell a bagatela de R$ 100 mil para que ela estivesse na folia de Salvador. No Rio, uma cervejaria garantiu flashes com a presença da atriz americana Lucy Liu por R$ 170 mil. Mas, no dia-a-dia, os cachês são mais modestos, variando entre R$ 2 e R$ 7 mil. Estrelas do horário nobre e consagrados, no entanto, levam mais, chegando a R$ 40 mil para uma atriz do porte de Deborah Secco, Taís Araujo e Flávia Alessandra.

Que feio

Atualmente, a palavra “vip” não é usada apenas em sua acepção original. Ela também serve para designar benefícios econômicos ou gratuidade. Na noite, estar na lista vip, por exemplo, pode não significar que você é importante, mas, sim, que poderá entrar sem pagar em uma festa. E isso tem também seu lado feio.
Produtores, promotores, assessores e donos de salões de beleza, clínicas estéticas, restaurantes e casa de shows são assediados por famosos ou “pseudo-celebridades’ em busca de presentinhos por sua presença no estabelecimento ou por usar um serviço de sua marca.

Recentemente, o blog sobre famosos “Te dou um dado?” divulgou uma mensagem da top Isabella Fiorentino no site de relacionamentos Orkut, em que a bela pedia um “vip’ para a amiga e atriz Mariana Kupfer. Na mensagem, Isabella diz que Mariana está “meio dura”, mas gostaria muito de malhar com a professora que recebeu o recado.

Capitalismo

O mundo vip também movimenta a economia. Espaços exclusivos são encontrados em aeroportos, criados por companhias aéreas, por exemplo, que oferecem mais conforto a seus clientes do que aos pobres e desamparados consumidores comuns. Em boates, as áreas vips são objeto de desejo de quem quer poder dançar sem ser espremido pela multidão.

Outro setor que explora economicamente o desejo de ser vip das pessoas é o de fabricação de pulseirinhas vip. A VisualBand, no ramo há 12 anos, diz que nos últimos três anos os pedidos de pulseiras para boates, casas noturnas e festas aumentaram em torno de 25%.

O departamento de marketig da empresa também lembra que é comum o pedido de diferentes modelos de pulseira para um mesmo evento. “Neste segmento de clientes, é comum o uso de pulseiras personalizadas contendo marcas de patrocinadores e apoiadores, onde o intuito principal é diferenciar de simples freqüentadores a clientes super-vips, que contam com áreas e atendimento exclusivos’, diz Felipe Bomfim, do departamento de marketing da VisualBand.

Foi isso que aconteceu, por exemplo, na festa que a marca de roupas Colcci promoveu para a modelo Gisele Bundchen, no Rio. Os convidados foram separados e apenas os super vips tinham acesso à parte onde dançava a homenageada da festa. Ainda segundo a VisualBand, as pulseirinhas também são muito pedidas para comemorações pessoais. Neste caso, o objetivo é mesmo fazer os convidados se sentirem prestigiados e verdadeiros vips.

Descontentes

A existência desses espaços onde alguns são mais que outros, no entanto, não agrada a todo mundo. Os chamados “curraizinhos vips”, destinado a gente de imprensa e famosos em shows e festas, por exemplo, incomoda o Dj e produtor de festas Maurício Valladares. Como freqüentador desses eventos, ele nunca concordou com a reserva dos melhores lugares a convidados especiais em detrimento do público pagante. Foi por isso que em seu programa de rádio, o Ronca Ronca, começou a usar o bordão “É vip? Então paga”.

“Sempre achei um absurdo a área vip. Tem que valorizar o cara que gosta da banda, que vai no show. Comecei a usar o slogan no programa e também na filipeta da festa”, diz Valladares. O próximo passo é, a pedidos, criar uma camiseta.

“A idéia é haver uma conscientização de que é ridículo e anti-democrático haver espaços vips. Com as pessoas usando a camiseta nos shows e eventos as pessoas vão se tocar”, explica Valladares.



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