Enfim, só

Apesar de muitos temerem a solidão, tem gente que vive muito bem sozinho. Mas ao optar por essa escolha é preciso ter segurança e não se deixar abater.

Viver só não significa solidão. Sobre o assunto, a psicóloga Silvia Rios afirma que tudo na vida é uma questão de escolha. “A solidão é muito difícil de lidar quando esperamos que apenas outra pessoa possa dar um significado para nossa vida, fazendo com que ela seja o personagem principal de nossa história e nos colocando como coadjuvantes e secundários”, argumenta.

Para a psicóloga, quem escolhe morar só vai estar bem com isto enquanto este fato for uma opção. Mas, por outro lado, quando a pessoa se preocupa com isto, ela cria um ambiente para a solidão se instalar.

“Enquanto viver sozinho for de fato sua escolha, vai estar tudo bem, a dificuldade começa quando esta opção não é (mais) uma escolha. A maior dificuldade para o indivíduo é o sentimento da solidão”, comenta.A solidão, então, seria o maior temor das pessoas que moram sozinhas. Silvia diz que para enfrentarmos este problema devemos estar seguros de nós mesmos e afirmar nossa independência.

“Talvez algumas pessoas temam viver sozinhas porque não aprenderam a desempenhar o papel de personagem principal de sua própria história”, opina.Antigamente, mulheres que não se casavam eram mal vistas pela sociedade e ninguém se imaginava vivendo só.

Hoje, com a modernização e as liberdades conquistadas, tanto homens quanto mulheres têm pensado mais em se dedicar à sua vida profissional e pessoal, deixando em segundo plano a formação de uma família.As tecnologias que reformularam o mundo em menos de um século contribuíram para a criação de uma sociedade mais isolada, onde os fones de ouvidos, computadores e televisões tomam conta.

Para Silvia este fato é contraditório, “essa parafernália tecnológica muito contribui para o isolamento das pessoas, principalmente os jovens que já nasceram nessa era. O paradoxo, é que falamos da era da globalização como a melhor forma de comunicação, só que a mesma tecnologia que nos proporciona usufruir dessa globalização nos isola, quando ”fechamos” nossos ouvidos com os fones e nos satisfazemos em “viajar” pela Internet, nos fechamos, assim, em casulos”, diz.

Apesar de o cenário favorecer os solitários, tem muita gente que vive muito bem e feliz sozinho. É o caso da professora aposentada Marli Soares*, que nunca se casou, apesar de ter sido noiva, e também não teve filhos. “Quando meu noivado acabou eu decidi investir na minha carreira, naquela época, nos final dos anos 50, era mais difícil porque as mulheres ainda lutavam por um espaço no mercado, mas eu me formei e fiz cursos de pós-graduação.

Viajei por quase todo o mundo e conheci muitas pessoas”, conta.Marli afirma que às vezes se sente sozinha, sim, mas que quando fica abatida devido à solidão, procura uma amiga ou algum familiar. “Eu não deixo a minha mente vagar muito não. Se me sinto sozinha trato de arranjar algo para fazer. Apesar de não ter tido filhos, eu tenho muitos sobrinhos e todos eles são muito carinhosos comigo”, argumenta.

Sobre o medo de envelhecer sozinha, ela diz que espera ter muita saúde para continuar vivendo, mas que sabe que, se um dia precisar, terá pessoas dispostas a ajudá-la.Silvia ressalta que essa preocupação é desnecessária. “Ter constituído família de forma tradicional – marido, mulher e filhos - não é garantia de velhice assistida. Portanto não acho uma boa idéia os adeptos do morar sozinho se preocuparem precocemente com esta questão”, afirma.

*O nome foi trocado a pedido da entrevistada.



 

 



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