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Portugal,
um estado de espírito
“Portugal não
é um país que se entenda de
primeira, de segunda ou de terceira”.
O comentário, para além do
aleatório, é do professor
Boaventura Sousa Santos, numa aula proferida
em Coimbra agora em junho. Falava ele sobre
o contexto da migração, da
composição da população,
sobretudo no período do fim do colonialismo
português, o que durou mais (cinco
séculos) com seus percalços
, singularidades, especificidades. Depois
de quase sete meses residindo “cá”,
concordo com o professor. Portugal não
é simplesmente um país, é
um estado de espírito.
Estréio minha participação
neste espaço falando do pedaço
de Portugal que tenho conhecido melhor,
o Centro, cuja capital é Coimbra,
que nos revela muito mais do que a história
que une o Brasil à renomada universidade
local, que acolhe brasileiros sem restrições
desde os tempos da Inconfidência Mineira.
Destino turístico
pouco referenciado, Coimbra é uma
jóia rara. Localizada ao meio do
caminho entre Lisboa e o Porto, a capital
do Centro é marcada pela vida estudantil,
onde metade da população (200
mil pessoas) estuda ou trabalha na Universidade.
Portanto, é cheia de jovens de todo
o Portugal e de todo o mundo que agora em
Julho estão em festa permanente com
o final do ano letivo (que aqui começa
em Setembro), junto com a festa da Cidade,
que vai até o dia 20 deste mês.
Para quem viaja sozinho, uma boa opção
de paquera.
São vários
os vestígios do século XIII,
nas fachadas e interiores das igrejas –
destaques para a Sé Velha e a Sé
Nova, na Alta, para a Igreja de Santiago,
e para Igreja de Santa Cruz, onde está
enterrado o primeiro rei de Portugal, Afonso
Henrique. Ainda na Alta há o casario
e os trechos que restaram da muralha (ou
couraça) que protegia a Alta, a parte
mais antiga da cidade onde fica a Universidade,
que nasce praticamente junto com o próprio
país, como se lê no site da
UC:
“A história da Universidade
de Coimbra remonta ao século seguinte
ao da própria fundação
da nação portuguesa, dado
que a Universidade foi criada no século
XIII, em 1290. Antes, porém, em 1288,
foi elaborada uma Súplica ao Papa
Nicolau IV (de que só se conhece
o traslado) datada de 17 de Novembro de
1288 e assinada pelos abades dos Mosteiros
de Alcobaça, Santa Cruz de Coimbra
e S. Vicente de Lisboa e pelos superiores
de 24 igrejas e conventos do Reino.Este
documento solicitava a fundação
de um “Estudo Geral” e aquelas
instituições religiosas assumiam
a garantia do seu financiamento. Não
se sabe se a Súplica chegou à
Santa Sé”.
O passeio pela Universidade
é imperdível, sobretudo a
Capela e a Biblioteca Joanina, localizadas
no complexo onde fica a reitoria e a famosa
faculdade de Direito. Há graduações
e pós-graduações para
todos os gostos, um bom pretexto para viver
no local. Coimbra é linda, arborizada,
florida, segura – se comparada com
Lisboa ou Porto ou o Brasil, é o
paraíso. Para namorar ou para curtir
o happy-hour (que aqui é por volta
das 20, 21 horas nesta época), nada
melhor do que um café no Parque Verde,
às margens do Mondego, o rio que
cruza a cidade, outro orgulho português
por ser o único que nasce e desagua
em território nacional – os
demais nascem na Espanha.
Nos arredores, o castelo
de Montemor-o-velho, muito bem preservado,
e as ruínas de Conimbrida. A uma
hora de comboio (“trem-de-ferro”
aqui), dois passeios imperdíveis:
Aveiro e Figueira da Foz. Ambas estão
a cerca de 50 quilometros de Coimbra. Figueira
tem um calçadão à beira
mar extenso e belíssimo, vale a pena
ver o mar revolto e se indagar quanto a
coragem dos portugueses em sair mundo afora
em barcos de madeira. O Aveiro, um pouco
mais ao Norte, a meio caminho do Porto,
é roteiro obrigatório para
solteiros, sós ou acompanhados. A
cidade tem a fama, nem tanto exagerada,
de ser a “Veneza portuguesa”,
pois é atravessada por canais onde
é intenso o movimento dos barcos
mouliçeiros, outrora utilizados na
pesca e agora adaptados para passeio com
turistas. Além do mais, Aveiro é
a cidade dos doces, para quem está
com o colesterol em dia é um paraíso
(não deixar de experimentar os famosos
“ovos moles”, docinho cujo recheio
é a base de ovo), para quem não
pode, uma tentação.
E estar em Coimbra tem como
vantagem estar no meio do Portugal com acesso
a todo canto da Europa, de comboio ou de
avião (o Porto fica a 100 km e tem
um dos melhores aeroportos do mundo). Se
você se chatear, opções
é que não faltam. Entre elas,
claro, Lisboa, o próprio Porto e
o Algarve, litoral Sul. Mas isso fica pra
próxima.
Nossa(?) língua portuguesa
É comum entre os brasileiros “mangar”,
como se diz no Ceará, do palavreado
português, no que “rapariga”
deve ser o exemplo mais clássico.
O que não se diz é que “cá”
não entenderiam muitas de nossas
expressões cotidianas, e apesar da
audiência às telenovelas, os
portugueses dizem que falamos português
sim, mas “brasileiro” ou, como
disse dias desses um professor meu, Sousa
Ribeiro, “somos separados por uma
língua em comum”. Vou inaugurar
a sessão Nossa(?) língua portuguesa
onde trarei, a cada texto, expressões
para NUNCA serem dita cá e palavras
que designam aqui uma coisa e no Brasil
outra, ou coisa alguma. Vamos lá:
NUNCA diga aqui a gíria “dei
uma rata” – se é que
alguém ainda diz isso para dizer
“vacilei”. “Rata”
é uma das tantas designações
para o órgão sexual feminino,
na gíria local.
Essa os cariocas não vão
gostar: aqui uma porção de
chá ou de café fraco é
um “carioca”. E um café
duplo é um “abatanado”.
Abraços a todas e a todos. Até
a próxima.
Tulio Muniz é
Jornalista e Historiador, desde novembro
vive em Coimbra, Portugal, onde faz Doutorado
em Sociologia.
Para falar com os colunistas envie mensagem
para
pelomundo@solteirosesolteiras.com.br
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