Pelo Mundo
Maíra Amorim e Túlio Muniz
 
 

Abril em Portugal

O título refere-se a uma das mais bonitas canções sobre Coimbra, que entra bela e menos monótona em mais uma primavera. Desaparece o negro das roupas que caracteriza o inverno, prevalecendo o colorido nos corpos e nos sorrisos. Também na programação cultural anunciam-se boas novidades, como as igrejas (muitas quase milenares) com apresentações musicais (coros e órgãos). Os estudantes preparam-se para a festa da Queima das Fitas, em maio, o maior evento da cidade.

Nessa festa, a verdade é que há um bocado de reificação e sobrevalorizão da tradição um tanto ambígua, dada a roupa preta que a maioria adota. Resumidamente, entre 1969 e 1985, os estudantes de Coimbra aboliram a "praxe" (o "trote" no Brasil) e o uso do "traje" - um terno (aqui, "fato") negro sobre camisas brancas com calças para os homens e saias para as meninas, levando sobre tudo uma capa negra que lhes proporciona apelidos (cá, "alcunha", pois "apelido" aqui é sobrenome). São chamados de "capistas" por parte dos estudantes anarquistas anti-praxe ou de "Harry Potter" por parte dos estudantes brasileiros. Mas há um momento muito interessante na tal Queima: o cortejo.

Nesse evento, cada faculdade organiza um carro alegórico - são dezenas - para compor um desfile que toma uma parte da cidade. Tudo vale no cortejo, é um verdadeiro carnaval, mas sem música, com fantasias e transgressões dos geralmente alinhados praxistas. Acontece de tudo um pouco, de subir à estátua em homenagem a João Paulo II e beijar-lhe à boca até desfilar quase nu ou nua. Mas o ponto alto do cortejo é a distribuição de cerveja de graça aos participantes e à platéia, uma festa desaconselhada aos abstêmios. Mais informações sobre a festa encontram-se no http://2008.queimadasfitas.org/event.html

Mas voltando ao mote, Abril em Portugal, a canção (ouça uma bela interpretação em http://www.youtube.com/watch?v=amYTQ91W6xo) é de Raul Ferrão e literária de José Galhardo. Não é nenhuma celebração ao 25 de Abril de 1974, a Revolução dos Cravos, pois foi composta em 1940. Parece, antes, ser uma celebração à primavera que aqui chega com uma exbuerância de dar gosto. Relembro a música por conta de um de seus versos: "Coimbra do Choupal / Ainda és capital / Do amor em Portugal...."

Pois bem, o Choupal é a Mata Nacional do Choupal, que começou a ser plantada há mais de 200 anos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Mata_Nacional_do_Choupal) e agora vê um bom pedaço seu ameaçado. O governo quer derrubar uma parte considerável para fazer uma ponte sobre o Rio Mondego e um grande movimento cívico se formou há três meses para tentar, na Justiça, barrar o projeto.

O Choupal é um dos poucos espaços verdes com excelente estrutura de lazer e desporto da cidade, e corre o risco de perder parte da área por conta de um discurso "desenvolvimentista" que ouvimos cá, no Brasil ou em qualquer canto do Mundo - assim, com maiúscula, para firmar a importância de um ente que por vezes desconsideramos como sendo nós mesmo. A ponte, caso se concretize, será com recursos da União Européia, o que desmerecerá, por exemplo, todo e qualquer discurso preservacionista europeu sobre a Amazônia, por exemplo. Nisso perdemos todos, portugueses que ficarão sem um pedaço do Choupal ou brasileiros que vêem a Amazônia diminuir, embora num ritmo mais lento. Se perderá um bocado da beleza e da poesia da canção. Vindo agora a Coimbra, vá ao Choupal, antes que ele se acabe ou pelo menos perca um bocado da sua beleza, literalmente.

Entre as duas pontes o trecho da Mata do Choupal que pode desaparecer

Tulio Muniz é Jornalista e Historiador, desde Novembro de 2007 vive em Coimbra, Portugal, onde faz Doutorado com apoio do Programa Alban.

Para falar com o colunista envie mensagem para
pelomundo@solteirosesolteiras.com.br

 



© 2007- Monte Castelo Idéias ® Todos os direitos reservados.
  Criação e desenvolvimento: Café Expresso Design