Pelo Mundo
Maíra Amorim e Túlio Muniz
 
 

A (quase) indizível Berlim


Planeja viajar ao Outono europeu e não tem destino definido? Que tal BERLIM, a capital alemã? Emblemática não só pela historia recente, onde a queda do Muro é o episódio marcante, Berlim é uma cidade única, quase indescritível, é para ser sentida mais do que descrita. Difere-se um bocado de uma cidade alemã convencional, é organizadamente irresponsável (não se surpreenda com o hábito local de tomarem café da manhã em pleno meio dia), agenciadora de um estilo de vida único na Alemanha, quiçá na Europa e mesmo no mundo.


Berlim destoa o coro dos incontentes. A cada 50, 100 metros há um jardim, ou uma praça, ou um parque. É totalmente sobre rodas, seja nos bondes elétricos da parte oriental, seja no eficiente metrô, sejam nas milhares de bicicletas das quais fazem uso desde o mais punk ao mais elegante dos moradores (a cidade toda é dotada de ciclovias). De dia e de noite, uma cidade imperdível. Passei lá três semanas neste verão, andando muito deu pra conhecer muita coisa, seguem algumas dicas:


- O uso do inglês é corrente, mas praticamente restrito à fala. Quase nada na cidade é sinalizado em inglês, prevalece o alemão, e uma compreensão básica da língua ajudará bastante se a estadia for prolongada.


- Berlim foi capital do império prussiano e do período absolutista restaram vários monumentos arquitetônicos. Alguns estão no centro da cidade, na avenida Unter der Linden, mas os mais fascinantes são os castelos de Sophie-Charllote, num bairro berlinense, e Sonssouci, em Potsdam, nas cercanias da cidade. O acesso a ambos é facilitado de metrô ou de ônibus e vale a pena dedicar uma tarde ou uma manhã a cada um deles, sobretudo ao conjunto de castelos e os jardins de Potsdam.


- Berlim tem fama de uma noite sem fim nos finas de semana. É pura verdade. Há de tudo pra todos os gostos e opções sexuais. A liberdade sexual é vivida e experimentada, mas também em campos bem delimitados, gay é gay, lésbica é lésbica e hetero é hetero.

Mas há lugares onde tudo se mistura, como a boate Berghain. Outra dica imperdível é o bar Clube dos Visionários, perto da estação de Warschauer, onde pode-se beber e conversar apreciando as boas cervejas alemãs e checas às margens de um braço do rio Spree e também sobre o rio. É que muitas mesas são dispostas em plataformas flutuantes atadas à margem. A noite berlinense, claro, não se resume a isso, procure o que melhor lhe agradar que, certamente, encontrará.


- No Outono haverá tempo ainda para noites inusitadas nos muitos, muitos parques que existem dentro da cidade, no que o Vitoria Parque, em Kreutzberg, é o mais indicado. É nos parques que se visualiza um estilo tipicamente berlinese de viver. De dia, dezenas de pessoas estendias nos gramados para tomar sol, praticando esporte, e à noite rodas de jovens bebendo e cantando. Se não estiver perto do Vitoria, não há problema, haverá sempre um parque próximo à sua hospedagem. E tranquilize-se: assalto é palavra que não existe no dicionário urbano de Berlim.


- Até onde me informei, dificilmente no Outono há dias quentes, mas nestes tempos de reviravolta no clima, quem sabe. Acontecendo isso, localize os tantos lagos que circundam a cidade. Se não houver calor, vale a pena conferir nem que seja pela vista. No caminho de Potsdam há dois belos lagos, Wansee e Schlachtensee. Wansse é maior e com entrada paga, já Schlachtensee é menor, gratuito, ao lado da estação de metrô e mais simpático, sobretudo pela mata que o envolve.


- Programe uma visita aos muitos museus. Há desde o Museu do Sexo até o Pergamum, onde estão instalados dois templos gregos, um romano e um pedaço das muralhas da Babilônia, peça gigantesca com mais de 3.500 anos. São relíquias alojadas em Berlim no auge do império prussiano.

O Pergamum Museu é imperdível, mas aproveite o dia reservado a essa visita para ir também aos vizinhos, na Ilha dos Museus, principalmente a Galeria Nacional e o museu onde estão as peças do Egito antigo – o busto de Nefertiti, magnífico – e da Grécia Antiga (é la que estão as famosas ânforas com ilustrações do quotidiano grego que ilustram tantas capas de livros). Um passeio completo por quatro dos cinco museus da Ilha (há um em reforma) sai em conta. Certamente há poucos lugares em que 7,5 euros são um investimento de tamanho retorno para uma vida.


- Por fim, os monumentos. O Muro, claro, é imperdível. O trecho mais longo que restou dele, cerca de 2 km de extensão, fica ao longo do Spree e vizinho a estação Warschauer . Claro que deve-se reservar uma manhã para andar a sua sombra e da sua história. No bairro de Mitte há um outro pedaço, com cerca de 100 metros e sem pixações e pinturas, vizinho ao Museu do Muro. E há alguns pedaços espalhados pela cidade, no que os de Potsdam Platz (no conjunto com Potsdam dos castelos) são os mais interessantes. É por onde o muro passava pela cidade, onde restou um rastro de pedras tipo paralelepípedo.


O portão de Brandemburgo, o monumento às Vítimas do Holocausto (vizinho ao portão), o Parlamento e o parque em seu entorno – onde fica a estátua da Vitória e Belle Ville, o palácio presidencial - são outros monumentos obrigatórios. E há também o Check Point Charlie, um memorial a céu aberto de um ponto de travessia da Berlim Oriental para a Ocidental. Para quem tem humor saudosista afiado, pode-se carimbar o passaporte com símbolos que eram utilizados pela Alemanha Oriental. O Check Point Charlie e o Muro não são os últimos marcos da parte Oriental, há também a Torre de TV, onipresente, os bondes elétricos e vários prédios de inspiração no modelo soviético.


Outra opção de visitação são prédios construídos pelo regima nazista, com a grandiosidade esquálida de sua arquitetura. O aeroporto de Tempelhof e o prédio do Ministério das Finanças são os mais significativos. O estádio olímpico também esta de pé mas sofreu muitas alterações.


Pra variar, não te esqueças: estadia de ao menos 15 dias, compre logo o passe de transporte que vale pra ônibus, metrô e bondes (também para alguns barcos no Spree). Não portar o bilhete pode valer uma multa ou, no mínimo, uma bronca que, em alemão, soa pior. E não te preocupes em atravessar de vez em quando um sinal vermelho para pedestres, o controle em Berlim é um tanto ausente. Como dizem os alemães de outras zonas, “Berlim não é Alemanha”. Não é mesmo, ainda bem….


Tulio Muniz é Jornalista e Historiador, desde novembro vive em Coimbra, Portugal, onde faz Doutorado em Sociologia, com apoio do Programa Alban.
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