Sétima Arte & Afins
Breno Gomes
 
 

Oi gente,
esta semana convidei o meu amigo, cineasta Paulo Fontenelle, para assinar a coluna. No próximo dia 2 de novembro, Fontenelle lança seu segundo longa-metragem, o documentário Sobreviventes - Filhos da Guerra de Canudos. A seguir, ele nos premia com o relato de sua divertida saga em uma sessão do filme Tá Dando Onda, ótima dica em cartaz nos cinemas a partir de hoje.

Breno Gomes


Animação Infantil que poderia ter sido um pesadelo:
TÁ DANDO ONDA num cinema lotado de crianças

Domingo atravessei, pela segunda vez na minha vida, por um pesadelo real. Sei que as pessoas têm uma tendência a pesadelos do tipo uma perseguição ou simplesmente estarem nus numa situação do cotidiano, mas meu grande pesadelo sempre foi um cinema cheio de crianças.

Já tinha passado por uma situação parecida no IMAX de Paris, quando descobri que quarta-feira é dia dos passeios escolares na França. Entrei no cinema para ver Fantasia 2000 – em sistema IMAX é fantástico –, mas para a minha surpresa o cinema, aparentemente vazio, começou a se encher de crianças, crianças e mais crianças. Quando a sessão começou (numa sala de uns 250 lugares) havia poucos adultos. Eu, minha namorada na época e uns dez professores. As outras cadeiras todas tomadas por crianças que a cada vôo das baleias (quem viu o filme vai lembrar) soltava um sonoro “Uh-lá-lá”.

Pois é, na tarde de domingo resolvi arriscar mais uma vez e utilizei os convites que tinha para a pré-estréia de TÁ DANDO ONDA, um novo desenho animado com pingüins. Mais uma vez, ao entrar na sala, me deparei com poucos adultos e as cadeiras totalmente tomadas pelas crianças. Mas já tinha me preparado psicologicamente, então o único cuidado que tomei foi o de sentar numa cadeira após o corredor central do cinema para garantir que ninguém ficaria chutando as minhas costas. (se bem que esse comentário é uma injustiça com as crianças, pois a quantidade de adultos mal-educados que faz isso é inacreditável).

Como se tratava de uma pré-estréia, não houve a exibição de trailers ou comerciais (cada vez mais longos) antes do início do filme. O que tornou os primeiros minutos um pouco preocupantes, basicamente por dois motivos. O primeiro, claro, as crianças demoraram um pouco para se aquietar. O segundo é que o início de TÁ DANDO ONDA parece uma cópia do início de um outro desenho de sucesso: Os Incríveis.

TÁ DANDO ONDA também começa com um plano documental, imitando uma entrevista com seu personagem principal, o pingüim Cadu, muito similar a entrevista com os heróis de Os Incríveis, mas após uma piada ferina e inteligente (ao ser perguntado se sabia cantar ou dançar – referência ao sucesso Happy Feet – Cadu dá uma sonora gargalhada e solta um belo “Eu? Não! Só sei surfar!”), o filme engrena e entendemos a grande ousadia e o grande trunfo de TÁ DANDO ONDA: durante todo o tempo ele se trata de um documentário sobre Cadu. Essa ousadia torna o filme, por certas vezes, genial. E a rapidez da história fez as crianças se aquietarem.

Aliás, mordi a minha língua, o comportamento das crianças foi ótimo. Claro que houve uma inquietação maior do que o normal numa sessão somente com adultos e também algumas conversinhas aqui e ali, mas nenhuma delas atendeu o celular durante a sessão! Isso ficou a cargo de um adulto para dar o “bom exemplo”.
E o filme? O filme é uma grata surpresa. O pseudo-documentário sobre o pingüim Cadu tem momentos hilários e mantém sua linguagem até o final. Os movimentos de câmera, planos fora de foco, personagens que não querem dar entrevista, narrações em primeira pessoa, fazem de “Tá Dando Onda” um filme infantil (com uma trama totalmente óbvia) apreciável para uma platéia adulta. Preciso admitir que há aquela velha barriga de roteiro e um arrastar no meio da trama, mas isso não tira o charme das piadas, dos personagens e a qualidade da animação. A água é um avanço em computação gráfica e os cenários são fabulosos. A resolução é um pouco rápida demais, porém deixa um gostinho de quero mais.

Outra boa nova a se ressaltar (aliás, outro preconceito meu) é a dublagem. Eu não suporto filmes dublados, mas a equipe dubladora do filme está de parabéns. As piadas foram “abrasileiradas” e os pinguins falam como os surfistas nacionais com suas gírias e trejeitos. Cadu, por exemplo, mora no Frio de Janeiro e seu amigo Frango veio do Mato Grosso.

TÁ DANDO ONDA é uma boa indicação para o final de semana. Quem estiver em busca de boas risadas, diversão light com toques de inteligência e uma boa animação gráfica vai se esbaldar.

Paulo Fontenelle é cineasta



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