Sétima Arte & Afins
Breno Gomes
 
 

O CINEMA QUE AMAMOS

Uma das coisas mais interessantes com relação ao cinema é como ele consegue refletir sobre si mesmo. Em mais de 100 anos, desde sua invenção pelos irmãos Lumière, diversos filmes já nos mostraram os bastidores de Hollywood (CREPÚSCULO DOS DEUSES), o complicado e apaixonante processo de realização de um filme (NOITE AMERICANA), a magia das salas de exibição (CINEMA PARADISO), o fascínio do espectador diante do que é projetado na tela (A ROSA PÚRPURA DO CAIRO), entre tantos outros olhares sobre essa, que é denominada a sétima arte. E uma vez ou outra, um cineasta volta ao tema, para novamente refletir sobre essa arte de massa, que tanto fascina e encanta. REBOBINE, POR FAVOR, do francês Michel Gondry, é a mais recente prova disso.

O filme é uma pérola. O tipo de produção que remete as nossas fantasias passadas, quando tentávamos recriar fora da tela toda a magia existente dentro dela. Desculpem as palavras tão rebuscadas. E por favor, não pense que REBOBINE, POR FAVOR é um filme de arte chato, que só meia dúzia de pessoas irá assistir. O que quero dizer com as palavras acima é que quase todo mundo, uma vez na vida, já “brincou” de diretor de cinema e tentou reviver com amigos, a emoção sentida em uma sala de cinema. E isso se dá com a recriação de cenas, momentos chave do filme assistido. Quem nunca foi Daniel San, um guerreiro jedi, um Drácula cruel ou participou de um conflito entre cowboys e índios.

REBOBINE, POR FAVOR retoma isso, através dos personagens de um balconista de uma decadente vídeo-locadora, Mike, e seu melhor amigo, Jerry. Depois que todas as fitas VHS da loja são desmagnetizadas, a dupla se vê obrigada a recriar as tramas dos filmes encontrados nas prateleiras. Aí que entra a graça e a genialidade do filme de Gondry. O espectador, assim como os personagens da trama, se divertem com a “tosqueira”, o “amadorismo” dos filmes alugados. Da noite para o dia, a vídeo-locadora se torna um sucesso, e uma lista de produções é solicitada pelos clientes. O que irá gerar “novas” produções.

E claro, a indústria cinematográfica não poderia ficar de fora. Diante do sucesso do feito dos amigos Mike e Jerry, representantes dos estúdios hollywoodianos surgem do nada – feito zumbis de filmes de terror – para acabar com a festa de todos, alegando quebra de direitos autorais. Ou seja, REBOBINE, POR FAVOR tem muito mais a dizer e refletir. Só que não farei dessa coluna uma dissertação de mestrado. Paro por aqui e sugiro que você vá rápido conferir o filme e se divertir com as recriações de grandes sucessos como OS CAÇA-FANTASMAS e CONDUZINDO MISS DAISY.

Cinema animado
Quando dezembro chega, todo bom cinéfilo sabe que nessa época as salas de exibição são “invadidas” por produções voltadas para as crianças ou cujo tema principal é o natal. A primeira opção pelo menos está reinando absoluta desde o dia 12 com o lançamento de MADAGASCAR 2 – A GRANDE ESCAPADA. A animação estrelada pelo leão Alex, pela zebra Marty, pelo hipopótamo Glória e a girafa Melman promete ser uma das grandes sensações desse fim de ano e começo de temporada das férias.

A primeira aventura dos animais do zoológico do Central Park foi um sucesso de bilheteria em todo o mundo. No Brasil ficou entre os filmes mais vistos do ano de 2005. Diante de tanta repercussão, nada mais lógico do que produzir um segundo filme. Dessa vez o quarteto vai parar na África Central, em uma reserva ambiental. É no meio da savana que Alex irá se confrontar com seu passado e seu destino. Falando assim parece até um drama inglês, mas no fundo MADAGASCAR 2 trata das escolhas que fazemos e daquelas que algumas pessoas desejam para nós. Divertido, engraçado e mais uma vez fazendo uso de referências do mundo pop – algo recorrente nas animações atualmente – a produção é garantia de um bom entretenimento.

Ah, os pingüins mafiosos continuam lá, criando planos mirabolantes de como voltar para Nova York. E garantem ótimos momentos. Ambigüidade também é outra marca nos desenhos atuais. A “louca” do rei Julien, que o quarteto conheceu no primeiro filme, continua remexendo muito e levando a platéia a gargalhada, com seu jeito espalhafatoso e ditatorial de governar.

L.A.P.A. é hip hop na veia

Para os fãs de hip hop e do cinema documentário uma boa pedida é o filme L.A.P.A., de Cavi Borges e Emílio Domingos. Depois de ser exibidos em festivais e ser promovido em diversas sessões gratuitas, o longa sobre o universo do hip hop no bairro mais boêmio do Rio de Janeiro chegas aos cinemas. O filme integra o projeto Distribuição Criativa, da Pipa Produções, que em dois meses lançou, além do L.A.P.A., mais três documentários: PRETÉRITO PERFEITO – O FILME DA CASA ROSA, MEU BRASIL e MEMÓRIA PARA USO DIÁRIO.

Assistir ao filme do Cavi e do Emílio é dar uma chance a esse cinema brasileiro feito no peito e na raça, com uma idéia na cabeça, o roteiro na mão esquerda e a câmera na direita. É ter a oportunidade de conferir um tipo de filme realizado com paixão e pouca grana, mas que prima principalmente pela boa história e pela boa técnica.

Cavi Borges é muito conhecido no circuito dos festivais. É um curta-metragista premiado e dos mais importantes jovens empreendedores da cena cultural carioca. Dono de uma badalada vídeo-locadora, a Cavídeo, mantém uma produtora de mesmo nome e apóia, sempre que possível, projetos em que acredita e que, principalmente, geram bons frutos para o cinema nacional. A parceria com Emílio Domingos gerou um documentário-musical interessante, que revela aos menos informados (como esse que vos escreve) um pouco mais sobre o mundo dos rappers, homens simples do subúrbio, que sonham apenas em fazer seu som e cantar suas músicas recheadas de letras críticas e ricas em rimas.

Outras estréias

Outros lançamentos da semana: o brasileiro O DEMONINHO DE OLHOS PRETOS, é mais uma adaptação de Machado de Assis, aproveitando as comemorações de seu centenário de morte; a animação erótica-adulta BRANCA DE NEVE DEPOIS DO CASAMENTO; mais uma continuação, CARGA EXPLOSIVA 3; e o retorno do cineasta espanhol Bigas Luna com EU SOU JUANI.   

Dica de presente de natal – parte 2

A dica de presente da semana é o livro 1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER. Qualquer fã de cinema ficará feliz da vida se ganhar esse livro. Abaixo segue texto de divulgação sobre a publicação, lançada no Brasil pela editora Sextante.

“Traduzido para 25 línguas e com mais de um milhão de exemplares vendidos, 1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER inclui obras de mais de 30 países e revela o que há de melhor no cinema de todos os tempos. Mais de 50 críticos consagrados selecionaram 1001 filmes imperdíveis e os reuniram neste guia de referência para todos os apaixonados pela sétima arte. Ilustrado com centenas de cartazes, cenas de filmes e retratos de atores, o livro traz lado a la'do as obras mais significativas de todos os gêneros – de ação a vanguarda, passando por animação, comédia, aventura, documentário, musical, romance, drama, suspense, terror, curta-metragem e ficção científica. Organizado por décadas, este livro pode ser usado para aprofundar seus conhecimentos sobre um filme específico ou simplesmente para escolher o que assistir hoje à noite. Um verdadeiro caldeirão de tendências e culturas, 1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER atravessa um século de produção cinematográfica. Do clássico ao underground, do cult ao noir, do terror ao romance – todos os filmes que marcaram época e emocionaram platéias podem ser encontrados neste guia imperdível. Selecionados por terem sido bem recebidos pelo público ou pela crítica, os filmes incluídos nessa lista têm sempre um elemento especial: são inovadores na estética, polêmicos no conteúdo, ganharam status de "clássico" ou levaram milhares de espectadores às lágrimas ou ao riso. E, juntos, formam um panorama geral do desenvolvimento do cinema mundial. Em 1001 resenhas informativas e interessantes, você vai conhecer detalhes dos bastidores, sinopses dos filmes e curiosidades sobre as gravações.

Percorrendo mais de um século de produções extraordinárias, você vai descobrir os filmes que não deveria ter perdido, os clássicos que merecem ser revistos e as obras-primas de que você nunca tinha ouvido falar. Até agora.” Fonte: Editora Sextante

Semana que vem tem a lista dos melhores e piores do ano.
Até lá.

Breno Lira Gomes é jornalista e programador do Cinema Estácio
Para falar com o colunista envie mensagem para
setimaarte@solteirosesolteiras.com.br

 




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