Sétima Arte & Afins
Breno Gomes
 
 

Zé do Caixão assombra os cinemas do Brasil

Em 2002, eu tive o prazer de conversar durante uma hora com o cineasta José Mojica Marins. Em virtude de um trabalho para a faculdade de jornalismo, saí do Rio de Janeiro e fui para São Paulo. Às 16h, de um sábado nublado, iniciei meu bate-papo com aquele que hoje considero o maior cineasta brasileiro. Sim, vão me apedrejar, mas não tem jeito. José Mojica Marins é melhor do que muitos que passaram por nossas telas. Criativo, carismático, corajoso, um mestre na arte de contar histórias a 24 quadros por segundo. E o que é melhor, em um gênero que ele praticamente inaugurou na cinematografia brasileira, o terror. Sempre tive o sonho (ou seria um pesadelo?) de assistir um filme dele na tela grande. Na verdade, de acompanhar o lançamento de um novo trabalho dele, de ver como filmaria nos dias de hoje.


Eis que José Mojica Marins está de volta. Na verdade não vem sozinho. Para alegria de uns e desespero de outros, ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, em cartaz nos cinemas brasileiros, faz justiça não só com o cineasta paulista, mas também com sua maior criação, o agente funerário ZÉ DO CAIXÃO. O sádico personagem, fruto de um sonho/pesadelo do diretor, retorna em um belíssimo filme, tecnicamente perfeito e a altura do talento de Mojica. ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO é talvez o melhor filme brasileiro lançado até agora.


O filme fecha a trilogia iniciada nos anos 60 com os filmes À MEIA NOITE LEVAREI SUA ALMA e ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER. Ambos estão disponíveis em uma ótima caixa, dedicada ao Zé do Caixão, lançada pela Cinemagia. Repletos de extras, os DVDs são uma verdadeira relíquia, com o melhor realizado pelo Mestre do Terror.


ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO se passa 40 anos depois de ESTA NOITE... Zé do Caixão sai da prisão e se confronta com um novo mundo. No lugar da cidade do interior, uma São Paulo barulhenta, repleta de luzes na noite, com crianças abandonadas cheirando cola e com mulheres e travestis se prostituindo pelas ruas. É interessante ver o choque entre Zé do Caixão e esse universo completamente novo para ele, totalmente diferente daquele do passado. Ele se assusta com o que vê, e mais ainda com o local para onde é levado por seu fiel seguidor, o corcunda Bruno. Dessa vez, Zé do Caixão colocará em prática suas maldades não contra o povo matuto do interior, mas contra os moradores de uma favela da periferia e da megalópole chamada São Paulo. Em seu encalço estão inimigos do passado, que sonham em fazer justiça com as próprias mãos. E do seu lado, jovens seguidores, que acreditam nas palavras do Mestre.


O que marcou o cinema de Mojica está presente em ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO. Diferente de outros diretores da antiga, ele se mostra revigorado e com muito tesão em fazer cinema. De forma alguma o filme é arrastado e nem a história é chata. O espectador fica preso na cadeira, se contorcendo de pavor diante de cenas de horror explícito, dignas do Mestre. Lá estão os fantasmas daqueles que Zé do Caixão tirou a vida; as bruxas tipicamente brasileiras; mulheres sensuais e corajosas; aranhas e outros bichos repugnantes.


Não vá esperando cenas que te pegam pelo susto. O cinema de Mojica não é isso. O cineasta, muito elogiado e admirado por nomes como Glauber Rocha, Luiz Sérgio Person e Quentin Tarantino, faz um cinema de terror tipicamente brasileiro, que lida com os nossos medos ao oculto, o desconhecido, àquilo que nos provoca repulsa. Zé do Caixão, no auge de sua maldade, não vê limites para chegar ao seu objetivo principal: encontrar a mulher superior que irá gerar um filho perfeito. O personagem acredita na continuidade do sangue. Para ele, a imortalidade está nos descendentes que você deixa no mundo.
ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO pode assustar pelo título, mas não se acanhe. Deixe o preconceito de lado, esqueça a imagem do Zé do Caixão ligada ao trash, e vá sem medo, ao cinema mais perto de você conferir o filme. Mojica com certeza é o pai de um gênero dentro do terror que provoca o espectador pelas fortes cenas exibidas na tela. Ele causa o horror pela tortura, pelo uso de animais peçonhentos, pela mutilação, pelos testes de coragem.


Zé do Caixão já faz parte do nosso imaginário. Seja através dos filmes, dos programas de rádio e TV, dos jornais, das revistas em quadrinhos. Muitos vão dizer que se José Mojica Marins fosse norte-americano estaria rico. E eles têm razão. Ao retornar ao batente, Mojica não quer só continuar a saga de sua sublime criatura, mas quer também ser lembrado, mostrar ao país que ele ainda está aí, e que pode nos assombrar com os piores pesadelos

“MINHA RELIGIÃO É O CINEMA”

Com ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO nos cinemas, o público brasileiro tem a oportunidade de conferir a volta às telas do personagem Zé do Caixão. Criado há 45 anos pelo cineasta José Mojica Marins, fruto de um sonho, o coveiro mais sádico da sétima arte é hoje um ícone cultural e adorado pelos jovens. O capítulo final da trilogia do Zé do Caixão recebeu censura 18 anos, o que deixou Mojica bastante decepcionado.

- A garotada está revoltada. Havia uma perseguição no passado, e ela continua. Só que agora sob a batuta do Juizado de Menores. Outros filmes que estão em cartaz, com temática ou cenas mais fortes que o ENCARNAÇÃO, conseguiram uma censura menor – comentou o cineasta.

Na época da ditadura, a figura do Zé do Caixão chegou a ser vista pelos generais como uma alusão a eles e a linha dura que implantaram no país. Por isso a perseguição aos filmes de Mojica. Para o diretor isso foi perda de tempo deles, pois ele estava preocupado em apenas contar suas histórias e nenhuma delas tinha esse cunho político visto pelos militares e censores da época. Além da censura, outra preocupação atual do veterano cineasta é a pirataria.

- Estou atrás dos DVDs piratas. Alguns fãs já me alertaram que viram ou adquiriram aqui em São Paulo a versão pirata. Estou pedindo a todos que me informem, pois quero ver essa versão e tentar tomar alguma providência – falou.

Antes da estréia, a expectativa de José Mojica era que o público gostasse do filme. Segundo ele, um boca a boca positivo está acontecendo e ele mesmo já sente isso, pois várias pessoas o abordam na rua elogiando ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO. Para aqueles que tem curiosidade de conhecer a obra do diretor paulista, existe uma caixa com diversos filmes dele, incluindo os dois primeiros capítulos da trilogia do Zé do Caixão: Á MEIA NOITE LEVAREI SUA ALMA e ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER. Esgotada pela terceira vez, Mojica pretende relançá-la e ainda um segundo volume com outros títulos.

- A minha religião é o cinema. O que sei fazer é tudo isso que está aí. Faço TV, fui um dos primeiros diretores a fazer fotonovela, escrevo roteiros para histórias em quadrinhos. Tenho idéias de ainda investir no terror, mas também tenho vontade de trabalhar com outros gêneros do cinema – revelou Mojica.

Em breve, o diretor que introduziu o gênero terror na cinematografia brasileira, parte para a Europa, especificamente Veneza, na Itália. De baixo do braço, seu novo filme, que além da exibição no Festival de Cinema de Veneza, também será exibido em um festival de cinema de terror na Espanha. Quanto ao destino de Zé do Caixão, Mojica prefere não dizer nada agora. No momento ele está focado no lançamento de ENCARNAÇÃO no Brasil e nas exibições previstas para fora do país.

- Há uma grande expectativa lá de fora quanto a essa nova fita. Recebemos parabéns vindos de países como a França, Estados Unidos, Alemanha, Espanha, Canadá, Holanda e alguns países da América Latina. Meu trabalho é mais reconhecido nesses países do que aqui no Brasil. Primeiro vou a Portugal dar uma oficina e depois sigo para os festivais. Quando retornar, pensarei no destino de Zé do Caixão.

O MELHOR DE ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO


- Mojica como Zé do Caixão continua fantástico;


- A participação de Jece Valadão (que faleceu durante as filmagens), Adriano Stuart, Rui Rezende, Cristina Aché, Zé Celso e Milhem Cortaz. Nomes importantes do teatro, do cinema e da TV que embarcaram no pesadelo criado por José Mojica Marins;


- Com certeza, o elenco feminino selecionado para ser as corajosas noivas de Zé do Caixão, é o melhor de todos os filmes do diretor;
- A seqüência do porco é chocante;


- Os fantasmas em preto e branco foi uma belíssima idéia, já que os filmes anteriores são nesse formato;


- Inserir cenas de À MEIA NOITE LEVAREI SUA ALMA e ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER foi outra feliz idéia. Ajuda o espectador que não conhece a trajetória de Zé do Caixão, a entender o seu desejo;


- A fotografia de José Roberto Eliezer, a trilha de André Abujamra e Marcio Nigro, a direção de arte de Cassio Amarante e a montagem de Paulo Sacramento são dignas de prêmio, sim senhor;


- Dennison Ramalho é o sujeito, que ao lado de Paulo Sacramento, ajudou a colocar na tela o sonho de Mojica. Ele é o responsável pelo ótimo roteiro;


- Zé do Caixão, suas noivas e seguidores, mais a Morte, vestidos por Alexandre Herchcovitch é um luxo para poucos.

 


Breno Lira Gomes é jornalista e programador do Cinema Estácio

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